UM TEXTO VIAJANTE DE OSWALD: “O ESCARAVELHO DE OURO”
Lino Machado – UFES
Como todos los hombres de Babilonia, he sido proconsul; como todos, esclavo; también he conocido a omnipotencia, el oprobio, las cárceles. (BORGES, 1985, p. 71)
Em cerca de vinte minutos, não é possível pretender dissecar “O escaravelho de ouro”, ressaltando-lhe o valor com mais pormenores. Trata-se de um longo poema de Oswald de Andrade, dividido em dezesseis seções de extensão muito desigual, estruturadas com trechos quase sem continuidade temática na passagem de um para o outro.[1] Uma análise de fato mais enriquecedora da obra em causa exigiria que se retroagisse temporalmente ao complexo textual da mitologia egípcia, no qual o escaravelho tem papel relevante, como símbolo por assim dizer “fonográfico” da ressurreição, do retorno solar.[2] Retrocedendo bem menos longinquamente no tempo, também precisaríamos abordar o conto de Edgar Allan Poe, “The gold-bug”, cujo título, transposto para o português, é já o mesmo do trabalho de Oswald. Como se vê, empreenderíamos uma extensa jornada, com todos os riscos de extravio que essa espécie de empresa acarreta. “Viagens, diásporas, migrações” foi, porém, o subtema do presente Congresso em que decidimos embarcar. Vejamos o que é possível fazer, nos limites da nossa escolha.
A temática da viagem é conhecida dos estudiosos de Oswald, desde que Antonio Candido se ocupou das suas incidência e reincidência na produção do escritor (CANDIDO, 1995, p. 61-66). O plural é, portanto, necessário: viagens, em prosa, em verso, na mistura dessas duas modalidades e na própria existência, de reconhecida mobilidade, do autor de Memórias sentimentais de João Miramar.
De modo muito ou pouco explícito, com termos associados mais ou menos claramente a esse tópico, o ato de viajar, estar em trânsito, percorre o poema.
Em “O escaravelho de ouro” aparece a dedicatória: “para Antonieta Marília” (ANDRADE, 1972, p. 133), filha do poeta. Notar esse dado paratextual, envolvendo o nome próprio infantil, revela-se importante: de imediato, da posição de elemento apenas espacialmente intermediário entre o título e o restante da obra, a referência à menina passa para o interior dos versos, não mais através da menção ao seu próprio nome, porém por meio da utilização considerável de um dêitico específico, vale dizer, verbos na segunda pessoa do singular, relativos ao tu da função conativa (JAKOBSON, 1975, 125).
Logo no início do corpus textual, ou seja ¾ se iconicamente é-nos permitido pensar ¾, na sua cabeça ou no seu ponto mais alto, na seção intitulada “Antena”, o emissor lírico estabelece contato com a criança[3]. Ele a induz a apanhar o inseto, tratado pela sua denominação zoológica, o que, pela estranheza dos sons desta no universo cotidiano, produz um curioso efeito poético, de caráter melopaico, sustentado, entre outros fonemas, pela repercussão das oclusivas /p/, /k/, /t/, /m/ e /n/ e pela constritiva /l/: “Pega o coleóptero pentâmero / Lamelicórneo / Escarabídeo de negro marfim” (ANDRADE, 1972, p. 135: destaque nosso). Em contraste, o verso, de sonoridade agora infantil, “Tata! É meu!” (ANDRADE, 1972, p. 135), da mesma seção “Antena”, parece ser a resposta da criança ao pai (tatá é papá, vocábulos onomatopaicos para papai).
O signo antena contém possibilidade de dupla leitura, duplo interpretante: tanto remete à parte frontal (a cabeça) do inseto que nomeia o poema, quanto à parcela de um artefato de natureza tecnológica (voltado para o alto) que permita a comunicação à distância entre as pessoas. A orientação para o destinatário, estudada por Roman Jakobson e outros como típica da função conativa, liga-se, de certa maneira, à acepção técnica de antena. A presença excessiva do dêitico da segunda pessoa do singular, muitas vezes sem indicação clara do destinatário a que se refere, produz uma espécie de diálogo ambíguo: assim, desde a segunda seção do texto (“Páscoa de Giorgio De Chirico”), é difícil determinar se o emissor dirige-se à sua filha, a si mesmo (na memória de eventos passados), ao próprio e invisível leitor ou ainda ¾ por que não? ¾ a todos esses entes, como se, de propósito, ele não quisesse mais distingui-los. Aceita a nossa hipótese interpretativa, a obra passa a apresentar um caráter bastante ambicioso: o seu conteúdo seria de natureza genérica, generalizante, espécie de balanço amargo da existência no nosso babélico ou babilônico mundo de lutas e contradições, mensagem endereçada a quem quer que dê olhos e ouvidos aos seus versos. Em tal mundo, é claro, acha-se bem incluído o Brasil.
O deslocamento da referência à filha, do paratexto da dedicatória para o interior do poema, é o que poderíamos chamar uma primeira migração, que, graças à identificação do emissor com a criança, por sua vez o arrasta para reminiscências da infância e da juventude: notamos uma jornada sentimental ao passado, portanto.
Por intermédio do uso do futuro do presente, o eu lírico, que, aliás, se assume como poeta nesse texto inspirado em Poe, profetiza um porvir que já conhece, pois o viveu no passado, no seu trajeto existencial de auto-afirmação perante os seus próprios pais. Na seção “Mistério gozozo”, ele prevê: “Abandonarás pai e mãe / Pelo tênis de bordo / As asas sobrarão / No jazigo familiar / Correrá atrás da mentira / O anjo de pernas curtas” (ANDRADE, 1972, p. 135). Aqui, também é interessante ressaltar o reaproveitamento literário de um lugar-comum, reativado com criatividade: o conhecido ditado “A mentira tem pernas curtas” é rearticulado e expandido por Oswald em “Correrá atrás da mentira / O anjo de pernas curtas”, ou seja, a filha do emissor-poeta lhe repetirá os passos, de certa maneira assemelhando-se ao escaravelho da mitologia egípcia, símbolo do retorno.
O “tênis de bordo” do trecho que vamos analisando aponta, por sua vez, pelo mecanismo de contigüidade, para o tópico da viagem: uma atividade lúdica exercida num meio de transporte de longa distância, como são os navios. Mais adiante, na seção “Buena dicha”, num salto ao passado, essas embarcações modernas cedem espaço a velhas caravelas quinhentistas, igualmente referidas pelo processo de contigüidade: “quatrocentos anos”, “trópico de capricórnio”, “velas”, “degredado”, etc. (ANDRADE, 1972, p. 139-40), signos que remetem para a origem colonial do Brasil, enfocada através da perspectiva crítico-irônica de um modernista. A questão da viagem no tempo e no espaço, com efeito, mostra-se fundamental no texto presente ¾ e isto desde o seu título, uma tradução para o português de “The gold-bug”, do oitocentista E. A. Poe: ora, etimologicamente, traduzir é conduzir, fazer passar, atravessar. E fronteiras se atravessam, seja a do Egito na fuga de Maria, José e Jesus, tratada na seção pitorescamente denominada “A família do burrinho”, seja a da França, em cuja capital o eu lírico em vão sonhou vir a estudar filosofia, desejo relatado precisamente na seção “Fronteira”, que aparece na seqüência imediata de “A família do burrinho”, o mais longo relato de “O escaravelho de ouro”. Episódios de duas eras tão distantes uma da outra são colocados em contigüidade espacial na mesma página, num processo de justaposição típico do modernismo, da era da velocidade, dos transportes rapidíssimos, que induziram tantos artistas a buscar uma apresentação da simultaneidade em suas obras. O simultaneísmo, a aproximação ou a interpenetração de épocas e lugares diversos, efetuada num mesmo continuum artístico, eis algo que pode ser visto como um processo no qual as distâncias do espaço-tempo são violentamente comprimidas, tendendo a um ideal ponto zero, numa sensação de sincronismo absoluto em que a história e a geografia do mundo parecem tornar-se mais maleáveis aos seres humanos. Como Ezra Pound, T. S. Eliot e outros nomes do modernismo internacional, a seu jeito Oswald lançou mão desse procedimento, sobretudo em “O escaravelho de ouro”, para não falar na prosa-poesia de Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande e na provocadora peça O homem e o cavalo, entre mais trabalhos do autor.
O tema da diáspora, tão ligado ao destino errático do povo judeu, surge, nesta obra dedicada a uma criança, não por acaso num dos episódios inaugurais do Cristianismo, a famosa fuga da família de Jesus para o Egito, com o objetivo de evitar o infanticídio, a morte do menino pelos soldados de Herodes. Desde o título dado ao evento (“A família do burrinho” e não mais “A sagrada família”), Oswald traduz a passagem do Novo Testamento à sua maneira mais característica, ou seja, com humor, parodicamente, de modo dessacralizante, até mesmo sacrílego.
Vamos vendo que há não poucas viagens em “O escaravelho de ouro”: a viagem sentimental à memória da infância, deflagrada pela observação de que a filha do emissor-poeta pega o inseto; a viagem pela história, em que o passado, seja o individual ou o coletivo, é recordado e transformado em matéria de previsão de um futuro pouco animador, ao qual, assim, se vai imaginariamente; o salto da temática de uma seção do poema para outra, de temática bastante diversa.
Mais dois assuntos também se ligam ao tópico da jornada.
O primeiro é o que chamaríamos o deslocamento por outras línguas, além da portuguesa. Por exemplo, em “A família do burrinho”, José fala algumas vezes, anacronicamente, em inglês, o idioma estrangeiro mais utilizado no texto, ao menos por duas prováveis razões: nele foi escrito “The gold-bug”, de Poe, e com ele se faz boa parte das comunicações do planeta, já em processo de “norte-americanização” na época de Oswald. Outros idiomas estrangeiros enxertados na composição são o francês e o espanhol, a cujos vocábulos acrescentamos Progrom, de sombria e anti-semita origem russa, que surge na passagem “egípcio-nazista” na qual José se revela bem-humoradamente precavido: “E dou um viva ao faraó Hitler... / (Antes que ele faça comigo / O Progrom que fez com Moisés)” (ANDRADE, 1972, p. 137).
O segundo ponto ligado ao tópico em exame diz respeito ao animal que intitula o poema, mencionado ali quatro vezes (aliás, sempre em trechos de significação cromática). Pode-se mesmo considerar as reaparições (ou “ressurreições”) do escaravelho um dos fios condutores na relativa obscuridade do conjunto de versos.
De início, o inseto aparece no presente, em “Antena”, quando o emissor-poeta dialoga com a sua filha pequena, referindo-se ao “escarabídeo de negro marfim”, como já ressaltamos. O bicho ressurge em cena do passado histórico, em “A família do burrinho”: “A família sagrada partiu / [...] / Sem saudades levar / Para as bandas do mar / Vermelho / Na poeira da madrugada / Cruzou um olival / O escaravelho” (ANDRADE, 1972, p. 136: destaque nosso). A terceira aparição deste se dá na seção “O hierofante”, marcada pelo tempo presente. Conativamente, aconselha-se: “Pinta o escaravelho / De vermelho” (ANDRADE, 1972, p. 139: destaque nosso). A quarta irrupção do inseto insistente ocorre de novo no passado histórico: em “Buena dicha” se trata da chegada dos europeus da Península Ibérica às Américas, falando-se em “velas / Que conduziam pelas estrelas negras / O pálido escaravelho / Dos mares” (ANDRADE, 1972, p. 140: destaque nosso).
Reunindo essas citações, perguntaríamos: por que, no presente de “O hierofante”, se deve pintar o escaravelho de vermelho, palavra associada ao velho mar bíblico da sagrada família? Por que ele deve ser assim pintado, se no pretérito de “Buena dicha” era visto como “O pálido escaravelho / Dos mares”? A hipótese do vermelho da revolução parece tentadora, num poema que refere Marx, nome, aliás, aproximado poeticamente a mar (OSWALD, 1972, p. 138). Além disso, José afirma à sua esposa: “A vida é um buraco / Enquanto não vier Maria / A socialização / Dos meios de produção” (ANDRADE, 1972, p. 137). Pálido como as caveiras pintadas nas caravelas dos piratas, o escaravelho não se transformou em símbolo efetivo da revolução. A jornada do inseto no tempo, imaginada pela mente do poeta, acaba por constituir um emblema de mensagem pessimista. Lê-se em “Plebiscito”, a última seção do poema: “Venceu o sistema de Babilônia / E o garção de costeleta” (ANDRADE, 1972, p. 141)... Eis o desfecho desanimador vislumbrado por Oswald, o qual tem muito a ver com o seu próprio tempo e, por certo, também com o nosso, em que plebiscitos e pálidos processos semelhantes não se vêm demonstrando democraticamente eficazes para solucionar os múltiplos problemas do Brasil e do mundo.
Tratemos um pouco mais deste último ponto.
De uma conhecida viagem, precedida e seguida por várias outras, resultou o que chamaríamos a “invenção do Brasil”. Vale a pena observar como, em “O escaravelho de ouro”, Oswald enfocou esse dado histórico, mais precisamente na seção “Buena dicha”, a nossa latino-americana “boa sorte”, que ele refere com ironia:
Há quatrocentos anos / Desceste do trópico de Capricórnio / Da tábua carbunculosa / Das velas / Que conduziam pelas estrelas negras / O pálido escaravelho / Dos mares / Cada degredado era um rei / Magro insone incolor / Como o barro // Criarás o mundo / Dos risos alvares / Das colas infecundas / Dos fartos tigres / [...] / Evocarás a humanidade, o orvalho e a rima / [...] / E da terra cercada de cerros / [...] / Na lua subirás / Como a tua esperança // O espaço é um cativeiro (ANDRADE, 1972, p. 139-140).
Poeticamente condensados, acham-se vários aspectos interessantes na passagem: a) o título “Buena dicha”, que pode remeter às viagens marítimas espanholas e, pelo conteúdo do trecho, sem dúvida às portuguesas, os dois empreendimentos transnacionais que deflagaram o que, em outro poema de Oswald (“Hip! Hip! Hoover! Mensagem poética ao povo brasileiro”), é tratado como “América do Sul / América do Sol / América do Sal” (ANDRADE, 1972, 115); b) o jogo paragramático com parcela do nome próprio do navegante que se celebrizou ao aportar neste lado do mundo, vale dizer, o Pedro Álvares Cabral que ressoa em “risos alvares”, dado que corrobora o pormenor lusitano destacado na alínea anterior; c) um dos nossos piores condicionamentos históricos, a circunstância de, inicialmente, a colonização do que iria tornar-se o Brasil haver sido empreendida por “degredados”, cada um deles um “rei”, com violento e imediatista poder de arbítrio, o que, até hoje, repercute no comportamento de boa parte da elite político-econômica do nosso continente; d) a constatação pessimista de que “O espaço é um cativeiro”, e não apenas o do nosso território, com a sua geografia delimitada, mas o espaço planetário, de acordo com a visão pouca animadora que, da existência individual como da coletiva, Oswald expõe em “O escaravelho de ouro”: visão na qual se nota o trajeto (não linear) do inseto pela história, motivando o escritor a dialogar quer com a sua filha, quer com uma variada segunda pessoa, transmitindo a amarga mensagem que constitui o poema. Este, não por acaso, abre com a seção de título “Antena”. Hoje, continuamos a ser os receptores de seu teor negativo, captado no presente com a perplexidade que conhecemos. Por enquanto, no atual horizonte de expectativa, continua mesmo vencendo “o sistema de Babilônia / E o garção de costeleta”.
Referências Bibliográficas:
ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
------. O santeiro do mangue e outros poemas. São Paulo: Globo / Secretaria de Estado da Cultura, 1991.
BIEDERMANN, Hans. Dicionário ilustrado de símbolos. Trad. Glória Paschoal de Camargo. São Paulo: Melhoramentos, 1994.
BORGES, Jorge Luis. La loteria em Babilônia. In: Ficciones. 13. ed. Madrid: Alianza/Emecé, 1985, p. 71-79.
CANDIDO, Antonio. Estouro e libertação. In: Brigada ligeira. São Paulo: Martins, 1945.
------. Oswald viajante. In: Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995, p. 61-66.
------. Digressão sentimental sobre Oswaldo de Andrade. In: Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995, p. 67-103.
CHALMERS, Vera Maria. Passagem do inferno. In: O santeiro do mangue e outros poemas. São Paulo: Globo / Secretaria de Estado da Cultura, 1991, p. 69-83.
CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain.Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva et al. 3. ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.
JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. Trad. De Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 1975.
POE, Edgar Allan. Ficção completa, poesia e ensaios. Trad. Oscar Mendes, com a colab. de Milton Amado. Rio de Janeiro: Aguilar, 1965.
------. Tales, poems & essays. London and Glasgow: Collins, 1981.
NOTAS:
[1] A presente comunicação integra um trabalho de maior dimensão: o Projeto de Pesquisa intitulado O bug do antropófago, desenvolvido do Departamento de Línguas e Letras da UFES, com a coordenação do Prof. Lino Machado e contando com a participação do Prof. Dr. Roberto Corrêa dos Santos, da Mestranda Aurélia Hübner Peixouto e dos Graduandos Artur Luis Barbosa, Fábio Alves Araújo e Manuella Assad Gómez.
[2] Símbolo “fonográfico” no seguinte sentido: na escrita egípcia, o escaravelho, com as patas estendidas, era representado pelo signo khepre, confundindo-se com o verbo kheper (“vir à existência numa certa forma”) e o deus Khépri (imagem do Sol Nascente). Cf. BIEDERMANN, 1994, p. 138 e também CHEVALIER & GHEERBRANT, 1990, p. 382-383.
[3] Manuella Assad Gómez notou o nexo paronomástico entre o prenome ANTonieta e o título “ANTena”. Tal nexo reforça a referência à menina não só a quem o texto é dedicado, mas que se transforma num interlocutor do eu poético, através da remissão anafórica que a ela é feita a partir da segunda pessoa do singular, implícita desde o terceiro verso do poema (“Pega [tu] o coleóptero pentâmero”).